Um pequeno texto desse grande pensador:
Se, como diz o dicionário, prevaricar significa "abusar do poder para obter uma vantagem contrária ao interesse da vítima" e "agir de forma contrária aos princípios da honestidade, transgredindo os limites do lícito", então muitas vezes o prevaricador, consciente da sua atitude, quer de algum modo legitimar o seu comportamento e, nalguns casos - como acontece nos regimes ditatoriais -, obter inclusivamente o consenso de quem sofre a prevaricação ou encontrar alguém que esteja disposto a justificá-la. É possível prevaricar-se e ao mesmo tempo recorrer-se a argumentos retóricos para justificar o abuso de poder.
Um dos exemplos clássicos da pseudo-retórica da prevaricação é-nos contado pela fábula do lobo e do cordeiro, de Fedro:
"Um lobo e um cordeiro, movidos pela sede, dirigiram-se ao mesmo riacho. O lobo parou no alto, o cordeiro muito mais abaixo. Então, o velhaco do lobo, invadido por uma desenfreada gulodice, procurou um pretexto para entrar em litígio.
-Por que é que - disse - turvas a água que estou a beber? - Cheio de temor, o cordeiro respondeu-lhe: - Desculpa, mas como é que eu posso turvá-la? A água que eu bebo passa primeiro por ti."
Como se vê, não falta astúcia retórica ao cordeiro, que, confrontado com a fraca argumentação do lobo, sabe o que deve dizer para a refutar, e vai precisamente buscar a opinião das pessoas de bom senso, que concordam que a água arrasta os detritos e as impurezas da montanha do alto para o vale e não do vale para o alto. Perante a resposta do cordeiro, o lobo recorre a outro argumento:
"E aquele, vencido pela evidência do facto, disse: - Há seis meses disseste mal de mim. E o cordeiro replicou: - Mas há seis meses ainda nem sequer tinha nascido!"
Outra bela jogada do cordeiro, à qual o lobo apresenta uma nova justificação:
"-Por Hércules, então foi o teu pai que disse mal de mim - disse o lobo. E saltou de repente para cima do cordeiro, despedaçando-o e matando-o injustamente. Esta fábula foi escrita para aqueles homens que oprimem os inocente com falsos pretextos."
Esta fábula ensina-nos duas coisas: de quem prevarica tenta sempre encontrar uma forma de legitimação; que se a legitimação é negada, o prevaricador opõe à retórica o não-argumento da força. O fundo da fábula está longe do irreal. (...)
Se, como diz o dicionário, prevaricar significa "abusar do poder para obter uma vantagem contrária ao interesse da vítima" e "agir de forma contrária aos princípios da honestidade, transgredindo os limites do lícito", então muitas vezes o prevaricador, consciente da sua atitude, quer de algum modo legitimar o seu comportamento e, nalguns casos - como acontece nos regimes ditatoriais -, obter inclusivamente o consenso de quem sofre a prevaricação ou encontrar alguém que esteja disposto a justificá-la. É possível prevaricar-se e ao mesmo tempo recorrer-se a argumentos retóricos para justificar o abuso de poder.
Um dos exemplos clássicos da pseudo-retórica da prevaricação é-nos contado pela fábula do lobo e do cordeiro, de Fedro:
"Um lobo e um cordeiro, movidos pela sede, dirigiram-se ao mesmo riacho. O lobo parou no alto, o cordeiro muito mais abaixo. Então, o velhaco do lobo, invadido por uma desenfreada gulodice, procurou um pretexto para entrar em litígio.
-Por que é que - disse - turvas a água que estou a beber? - Cheio de temor, o cordeiro respondeu-lhe: - Desculpa, mas como é que eu posso turvá-la? A água que eu bebo passa primeiro por ti."
Como se vê, não falta astúcia retórica ao cordeiro, que, confrontado com a fraca argumentação do lobo, sabe o que deve dizer para a refutar, e vai precisamente buscar a opinião das pessoas de bom senso, que concordam que a água arrasta os detritos e as impurezas da montanha do alto para o vale e não do vale para o alto. Perante a resposta do cordeiro, o lobo recorre a outro argumento:
"E aquele, vencido pela evidência do facto, disse: - Há seis meses disseste mal de mim. E o cordeiro replicou: - Mas há seis meses ainda nem sequer tinha nascido!"
Outra bela jogada do cordeiro, à qual o lobo apresenta uma nova justificação:
"-Por Hércules, então foi o teu pai que disse mal de mim - disse o lobo. E saltou de repente para cima do cordeiro, despedaçando-o e matando-o injustamente. Esta fábula foi escrita para aqueles homens que oprimem os inocente com falsos pretextos."
Esta fábula ensina-nos duas coisas: de quem prevarica tenta sempre encontrar uma forma de legitimação; que se a legitimação é negada, o prevaricador opõe à retórica o não-argumento da força. O fundo da fábula está longe do irreal. (...)
Umberto Eco
in A Passo de Caranguejo