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segunda-feira, 22 de dezembro de 2008



Feliz Natal e Próspero Ano Novo

Mais um pensamento exemplar de Umberto Eco

God isn't big enough for some people

We are now approaching the critical time of the year for shops and supermarkets: the month before Christmas is the four weeks when stores of all kinds sell their products fastest. Father Christmas means one thing to children: presents. He has no connection with the original St Nicholas, who performed a miracle in providing dowries for three poor sisters, thereby enabling them to marry and escape a life of prostitution.

Human beings are religious animals. It is psychologically very hard to go through life without the justification, and the hope, provided by religion. You can see this in the positivist scientists of the 19th century.

They insisted that they were describing the universe in rigorously materialistic terms - yet at night they attended seances and tried to summon up the spirits of the dead. Even today, I frequently meet scientists who, outside their own narrow discipline, are superstitious - to such an extent that it sometimes seems to me that to be a rigorous unbeliever today, you have to be a philosopher. Or perhaps a priest.

And we need to justify our lives to ourselves and to other people. Money is an instrument. It is not a value - but we need values as well as instruments, ends as well as means. The great problem faced by human beings is finding a way to accept the fact that each of us will die.

Money can do a lot of things - but it cannot help reconcile you to your own death. It can sometimes help you postpone your own death: a man who can spend a million pounds on personal physicians will usually live longer than someone who cannot. But he can't make himself live much longer than the average life-span of affluent people in the developed world.

And if you believe in money alone, then sooner or later, you discover money's great limitation: it is unable to justify the fact that you are a mortal animal. Indeed, the more you try escape that fact, the more you are forced to realise that your possessions can't make sense of your death.

It is the role of religion to provide that justification. Religions are systems of belief that enable human beings to justify their existence and which reconcile us to death. We in Europe have faced a fading of organised religion in recent years. Faith in the Christian churches has been declining.

The ideologies such as communism that promised to supplant religion have failed in spectacular and very public fashion. So we're all still looking for something that will reconcile each of us to the inevitability of our own death.

G K Chesterton is often credited with observing: "When a man ceases to believe in God, he doesn't believe in nothing. He believes in anything." Whoever said it - he was right. We are supposed to live in a sceptical age. In fact, we live in an age of outrageous credulity.

The "death of God", or at least the dying of the Christian God, has been accompanied by the birth of a plethora of new idols. They have multiplied like bacteria on the corpse of the Christian Church -- from strange pagan cults and sects to the silly, sub-Christian superstitions of The Da Vinci Code.

It is amazing how many people take that book literally, and think it is true. Admittedly, Dan Brown, its author, has created a legion of zealous followers who believe that Jesus wasn't crucified: he married Mary Magdalene, became the King of France, and started his own version of the order of Freemasons. Many of the people who now go to the Louvre are there only to look at the Mona Lisa, solely and simply because it is at the centre of Dan Brown's book.

The pianist Arthur Rubinstein was once asked if he believed in God. He said: "No. I don't believe in God. I believe in something greater." Our culture suffers from the same inflationary tendency. The existing religions just aren't big enough: we demand something more from God than the existing depictions in the Christian faith can provide. So we revert to the occult. The so-called occult sciences do not ever reveal any genuine secret: they only promise that there is something secret that explains and justifies everything. The great advantage of this is that it allows each person to fill up the empty secret "container" with his or her own fears and hopes.

As a child of the Enlightenment, and a believer in the Enlightenment values of truth, open inquiry, and freedom, I am depressed by that tendency. This is not just because of the association between the occult and fascism and Nazism - although that association was very strong. Himmler and many of Hitler's henchmen were devotees of the most infantile occult fantasies.

The same was true of some of the fascist gurus in Italy - Julius Evola is one example - who continue to fascinate the neo-fascists in my country. And today, if you browse the shelves of any bookshop specialising in the occult, you will find not only the usual tomes on the Templars, Rosicrucians, pseudo-Kabbalists, and of course The Da Vinci Code, but also anti-semitic tracts such as the Protocols of the Elders of Zion.

I was raised as a Catholic, and although I have abandoned the Church, this December, as usual, I will be putting together a Christmas crib for my grandson. We'll construct it together - as my father did with me when I was a boy. I have profound respect for the Christian traditions - which, as rituals for coping with death, still make more sense than their purely commercial alternatives.

I think I agree with Joyce's lapsed Catholic hero in A Portrait of the Artist as a Young Man: "What kind of liberation would that be to forsake an absurdity which is logical and coherent and to embrace one which is illogical and incoherent?" The religious celebration of Christmas is at least a clear and coherent absurdity. The commercial celebration is not even that.

• Umberto Eco's latest book is The Mysterious Flame of Queen Loana (Secker & Warburg)

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Umberto Eco

Um pequeno texto desse grande pensador:

Se, como diz o dicionário, prevaricar significa "abusar do poder para obter uma vantagem contrária ao interesse da vítima" e "agir de forma contrária aos princípios da honestidade, transgredindo os limites do lícito", então muitas vezes o prevaricador, consciente da sua atitude, quer de algum modo legitimar o seu comportamento e, nalguns casos - como acontece nos regimes ditatoriais -, obter inclusivamente o consenso de quem sofre a prevaricação ou encontrar alguém que esteja disposto a justificá-la. É possível prevaricar-se e ao mesmo tempo recorrer-se a argumentos retóricos para justificar o abuso de poder.
Um dos exemplos clássicos da pseudo-retórica da prevaricação é-nos contado pela fábula do lobo e do cordeiro, de Fedro:

"Um lobo e um cordeiro, movidos pela sede, dirigiram-se ao mesmo riacho. O lobo parou no alto, o cordeiro muito mais abaixo. Então, o velhaco do lobo, invadido por uma desenfreada gulodice, procurou um pretexto para entrar em litígio.
-Por que é que - disse - turvas a água que estou a beber? - Cheio de temor, o cordeiro respondeu-lhe: - Desculpa, mas como é que eu posso turvá-la? A água que eu bebo passa primeiro por ti."

Como se vê, não falta astúcia retórica ao cordeiro, que, confrontado com a fraca argumentação do lobo, sabe o que deve dizer para a refutar, e vai precisamente buscar a opinião das pessoas de bom senso, que concordam que a água arrasta os detritos e as impurezas da montanha do alto para o vale e não do vale para o alto. Perante a resposta do cordeiro, o lobo recorre a outro argumento:

"E aquele, vencido pela evidência do facto, disse: - Há seis meses disseste mal de mim. E o cordeiro replicou: - Mas há seis meses ainda nem sequer tinha nascido!"

Outra bela jogada do cordeiro, à qual o lobo apresenta uma nova justificação:

"-Por Hércules, então foi o teu pai que disse mal de mim - disse o lobo. E saltou de repente para cima do cordeiro, despedaçando-o e matando-o injustamente. Esta fábula foi escrita para aqueles homens que oprimem os inocente com falsos pretextos."

Esta fábula ensina-nos duas coisas: de quem prevarica tenta sempre encontrar uma forma de legitimação; que se a legitimação é negada, o prevaricador opõe à retórica o não-argumento da força. O fundo da fábula está longe do irreal. (...)

Umberto Eco
in A Passo de Caranguejo

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

mais 4 passos para arruinar a sua vida

1 - Nunca publicitar o que faz, nem referir como é bom nas coisas que faz, é uma das melhoras formas de como "low profile" ser visto como um falhado.

2 - Tente fazer sempre tudo dentro do legalmente aceitável e dentro dos parâmetros do politicamente correcto.

3 - Deixe que lhe digam que não presta para nada, e que não tem jeito para fazer nada. A humilhação é a melhor forma de "aumentar" a sua auto-estima.

4 - Seja íntegro e faça perceber que não está disposto de abrir mão do que considera ser humano. Os manipuladores irão encontrar aí muito terreno para fazerem valer os seus valores.

5 maneiras de estragar a sua vida

1 - Antes de tudo apaixone-se, case-se e entre num projecto de vida em comum. Dê tudo o que tem e não tem, e acima de confie nos amigos.

2- Empenhe-se num projecto a 100%, dê tudo o que tem - energia, know-how e, se possível, financie o projecto com os seus próprios meios.

3 - Confie plenamente nos seus sócios, quer sejam familiares ou não, e utilize toda a sua rede de contactos.

4 - Incentive os "sócios" a legalizarem todos os aspectos do empreendimento, pois no final alguém há-de ficar em vantagem (principalmente num 3 contra 1).

5 - Depois de ter sido "afastada" por meios duvidosos do projecto, recuse-se a continuar a financiar o estilo de vida que alguém quer ter, mas faz questão em provar o contrário entre amigos e familiares, vestindo a pele de cordeiro (essa pessoa há-de encontrar outro meio de conseguir recursos económicos que lhe garantam o estilo de vida).

Vai ver que esta estratégia nunca falha.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Perdição sentida

Há quem se possa sentir perdido no meio da multidão, tal como há outros que se sentem perdidos num espaço isolado. A humanidade alguma vez conseguirá aferir a percentagem de homens que consegue um discernimento exacto do que é. A premissa da dúvida metódica, da questão eterna do que existe para além do espaço conhecido. No fundo encontramo-nos no século XXI tão perto da condição do Homem da época das descobertas. O espaço físico do mundo alargou, praticamente não existe um canto do Planeta que não se tenha descoberto e explorado, contudo a busca continua, a insatisfação não se esgota e há que explorar mais além pela resposta que se procura desde tempos imemoráveis: quem somos, para onde vamos e estaremos sós. Agora sabemos quem somos no Planeta Terra, na nossa Galáxia. Mas haverá concerteza mais... A condição do ser humano.

Es kommt darauf an...

Es kommt darauf an wie man sich gerade fühlt, denn ansonsten kümmert sich ja je keiner um den gesundheitlichen Zustand des Gehirnes.

Uma sociedade que descura o bem-estar das crianças é uma sociedade doente e demente.

Little things that could make the difference in a frenetic society.

Para acabar um dia em que me sinta mais inspirada.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Bergauf/Bergab

Heute hat mein Gehirn den deutschen Schalter betätigt. Gerne würde es von etwas inteligentes und tiefes erzählen, aber alle "Hirnweise" sind geblockt. Es denkt an Günter Grass, Heinrich Heine, Emmanuel Kant und sonst noch welche Schriftsteller, aber es ist zu Faul, um sich momentan damit auseinanderzusetzen.

Sollten diese jedoch noch zum Vorschein kommen, so hätte es gerne Begleitung und Freundschaften, die seine Gesichtspunkte ausdiskutieren könnten. Auf jeden Fall bleibt es bei sich und grübelt nach einer Lösung. Es langt nach gesellschaftlichem Zusammensein und Ideenaustausch. Wie auch immer bleibt sie Lose vor sich, die Ansicht der Gestalt, das Zerbrechen d er Einsamkeit.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Sentada

Com um sorriso a varrer-lhe levemente o rosto, sentiu a brisa acariciar-lhe os cabelos elevando-os em pequenas ondas dançantes. Estava sentada na sua esplanada de eleição, não naquela que fica no meio do burburinho e da azáfama da cidade. Não, essa hoje não se afeiçoaria ao seu estado de espírito. Sentia o sol, e queria tê-lo presente no seu rosto por tempo indefinido. A esplanada da Costa dos Murmúrios, da Jangada de Pedra e da Menina e do Mar. As cadeiras rodadas por indíviduos que procuraram nela um abrigo, uma janela para a perfeição infinita. Sim, era essa a sua esplanada que proporcionava um olhar sobre o horizonte crespuscular mergulhado na imensidão do ser, na solicitude da esperança... O mar! O céu! Toda a natureza no seu infinito esplendor torturado pela beleza da inexistência.

Ficou sentada, inerte, só difrutando da languidez de quem sabe o que quer.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Amai os vossos inimigos

“Amai os vossos inimigos e fazei o bem aos que vos odeiam...”

Tinha aprendido essa lição o pequeno Jerry, o menino negro de Washington que, devido ao seu elevado coeficiente de inteligência, fora admitido numa classe especial formada só por meninos brancos. Mas a sua inteligência não tinha sido suficiente para convencer os colegas de que era igual a eles. A sua pele negra havia atraído o ódio geral, tanto é que, no dia de Natal, todos os meninos trocaram presentes, ignorando Jerry. O menino chorou; é compreensível! Mas quando chegou a sua casa pensou em Jesus: “Amai os vossos inimigos” e, de acordo com a mãe, comprou presentes, que distribuiu com amor a todos os seus “irmãos brancos”.

“Amai os vossos inimigos... orai por aqueles que vos caluniam.”

Como sofreu naquele dia Elisabete, a menina italiana que, ao entrar na Igreja para assistir à missa, foi ridicularizada por um grupo de colegas! Embora quisesse reagir, sorriu e, já na igreja, fez uma oração especial por eles. Na saída perguntaram-lhe o motivo do seu comportamento, que ela explicou com o fato de ser cristã. Devia, portanto, amar sempre. E disse isso com uma ardorosa convicção. O seu testemunho foi premiado: no domingo seguinte viu todos aqueles colegas na igreja, muito atentos, na primeira fila.
Assim os jovens encaram a palavra de Deus. Por isso são grandes diante dele.
Talvez convenha que também nós resolvamos alguma situação, tanto mais que seremos julgados da maneira como julgarmos os outros. De fato, somos nós que damos a Deus a medida com a qual Ele deverá medir-nos (cf. Mt 7,2). Porventura não lhe pedimos: “Perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido” (cf. Mt 6,12)? Portanto, amemos o inimigo!
Só agindo assim podemos recompor as faltas de unidade, derrubar barreiras, construir a comunidade.
É pesado? É difícil? Só o fato de pensar nisso já nos tira o sono? Coragem! Não é o fim do mundo: um pequeno esforço de nossa parte, depois os restantes 99 por cento Deus é quem faz e… no nosso coração haverá uma alegria imensa.

Chiara Lubich

Nem sei...

Agora já não terei mais saída. Ao longo dos anos alguém teceu as teias cuidadosamente para me deixar nesta situação de desespero. Foi um acto bem calculista e frio. Devo dizer que não tenho o mínimo de respeito por essa pessoa. E por muito que continue a manipular, primeiro em nome de Deus e depois em nome de qualquer outra entidade, deixei de a ter em consideração. O que fez à minha família, pais, irmão e filho não tem explicação e vai para além de qualquer tipo de humanismo. Declara um sangue-frio muito grande e um oportunismo atroz.

sábado, 16 de agosto de 2008

O mundo em mudança

A revolução está preemente há mais de um século. A guerra impregnou o século XX ao nível mundial e, por muito que queiramos ignorar, continua a ditar as regras neste início de século e de milénio que começou com um acontecimento bélico agressivo e simbolicamente ditador do que se vislumbra no horizonte (em minha opinião) não muito longínquo. A civilização ocidental, os seus valores, as suas estruturas sociais e económicas foram postas em causa, atacadas e o seu símbolo máximo destruido. As ideologias endogenas têm desde então invadido de forma massiva o ocidente e uns, mais ou menos convencidos, mais ou menos fanáticos, têm arrastado outros. Estamos no meio de uma crise de valores morais, sociais, religiosos e mesmo económicos. Tudo indicia a aproximação do auge de uma crise/revolução que se arrasta há já muito tempo. Muito haveria para especular e discutir, mais opiniões houvesse sobre a questão.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Ofertas, oferendas ou simplesmente desejo de empatia?

Ofereceu-lhe um pequeno anel de prata. A amizade que julgava existir entre ambos era por si sentida como um valor incalculável, para além de qualquer interesse ou valor material. Para si a simples presença da outra pessoa, o seu sorriso, a sua disponibilidade para conversar era por si só suficiente para amar, aceitar e elevar ao estatuto de amigo aquela pessoa. Abrira-lhe todo o seu ser, abrira-lhe a porta de casa e recebeu-a como se de família se tratasse. Agora, tinha-a à sua frente com um anel de prata na mão e uma exigência descabida, uma exigência de retorno. Não sabia como reagir, tudo o que sentia estava a ser pôr posto em causa. Recuou dois passos.

Já passara por esta situação antes. Amigos que julgara terem um sentimento reciprocidade igual ao seu, teceram juizos de valor sobre a sua pessoa baseada em rumores e manipulações de opinião. Não queria passar pelo menos. Agarrou na mão da sua amiga, fechou-a com o anel no seu interior e agradeceu. O anel ficara na posse de quem estimou como um ente querido.

A solidão passou a ser a sua companheira da noite e dos longos dias. Não queria passar pelo mesmo, não queria magoar nem ser magoado. Ficou. Viveu. E desejou que o mundo à sua volta não se regesse por essas questões mesquinhas. Inutilmente.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

A dualidade

Sentou-se à beira do muro, pernas penduradas, cigarro na boca. Contemplava a planície que se perdia de vista. Atrás de si a densidade das árvores deixaram-no num sentimento de sufoco atroz. Tivera dficuldade na travessia deste mato repleto de moitas espinhosas e arbustos traiçoeiros. Sentia alívio. Achava-se agora sentado a um nível mais elevado e todos os enigmas que atormentaram a sua imaginação enquanto desbravava o tumulto que o rodeava resolviam-se pouco a pouco, fio a fio com uma clareza pouco vulgar. Desejava ter ali um instrumento do qual pudesse soltar acordes e sonoridades singulares. Estava só. Sentado entre uma densa floresta e uma planície encantadora.

Que sonho mais irritante que o atormentava noite após noite. Suplicou poder deitar-se e saber que iria dormir tranquilamente até ao raiar do sol.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

A amizade

"Na amizade não há lugar para a superioridade e para o poder, nem para o mísero poder quotidiano, nem mesmo para a mais pequena maldade. Os (verdadeiros) amigos são magnânimos uns para o outro; são grandes Senhores. Instintivamente expulsam tudo aquilo que possa perturbar essa grandeza"

É assim com esta abertura, desdobrando-se em interpretações (...) que Francesco Alberoni coloca em dia, no mundo moderno, a importância, o altruímo e o prazer de um sentimento tão profundo e ancestral (que na nossa sociedade perdeu todo o seu sentido).


"Amigo é aquele a quem agrada e que deseja fazer bem a outro e que espera que os seus sentimentos sejam retribuídos"

J.M. Reisman

"A amizade exige sempre qualquer tipo de reprocidade (não interesseira visando somente o bem-estar unilateral e materialista). Eu não continuo amigo de alguém que não é meu amigo.

Analisando todas estas declarações concluo que a amizade, como se compreende nos nossos dias carece desse aspecto humanista de reprocidade de sentimentos e compartilha de interesses. Alberoni vai mais fundo, dando o exemplo de Itália em que a amizade tomou contornos bizarros e negativos, de privilégio e de recomendações. Pela via burocrática não se consegue nada.

Gostaria de pensar (e de sentir) que todos os que considerei amigos ao longo do meu percurso pessoal e a quem sempre recebi com a maior das sinceridades e carinho, sem interesses de qualquer natureza, o fossem na realidade: amigos de caminhada.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Mais umas considerações ao final da noite

É a primeira mensagem divulgada a um público estrito, seleccionado a partir de critérios muito específicos. Espero tenham a paciência para ler e que gostem do estilo. Qualquer tipo de comentário será bem-vindo.

Mesmo depois de sair

Mesmo antes de sair, vestiu o casaco, levantou a gola e meteu as mãos aos bolsos. Já não dava pelos lenços amarrotados, os cigarros meio fumados e os talões de compra que se encontravam no fundo. Queria apenas assumir a sua postura e passar despercebido pelo meio da multidão que o esperava na rua em plena hora de ponta. Mesmo depois de sair debruçou-se sobre o capô do carro que se encontrava no exterior retirou a multa visível no pára-brisas, olhou em redor com todo o cuidado e num gesto discreto amarrotou-a e deixou cair ao chão. Feliz cidadão de um País mediterrâneo que desculpa estes pequenos gestos.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Conversas nocturnas em Jerusalem

A Igreja de Cristo é a favor do Homem, da Justiça e do Deus vivo


Acaba de aparecer, com o título Jerusalemer Nachtgespräche, uma série de diálogos entre dois jesuitas, em Jerusalém, noite dentro: o padre G. Sporschill, austríaco, e o cardeal Carlo Martini, antigo arcebispo de Milão e um dos nomes mais famosos da Igreja, durante anos considerado papabilis (possível papa), que aos 75 anos se retirou para Jerusalém: "Jerusalém é a minha pátria. Antes da pátria eterna."

"Houve um tempo em que sonhava com uma Igreja que segue o seu caminho na pobreza e na humildade, uma Igreja que não depende dos poderes deste mundo. Sonhei com o exterminio da desconfiança. Com uma Igreja que dá espaço às pessoas que pensam mais longe. Com uma Igreja que anima sobretudo aqueles que se sentem pequenos e pecadores. Sonhei com uma Igreja jovem. Hoje já não tenho esses sonhos. Aos 75 anos, decidi-me por rezar pela Igreja. Olho para o futuro. Quando o Reino de Deus chegar; como será? Como será depois da minha morte, o meu encontro com Cristo, o Ressuscitado?"

Significa esta confissão desânimo? De modo nenhum. É certo que o que lhe causa preocupação é "a falta de coragem". Aliás, a palavra"Mut" (coragem, ânimo) e, consequentemente, "animar", "ter coragem" são expressões constantes e recorrentes. "A Igreja deve ter a coragem de se reformar". "A Igreja permanentemente de reformas." "Porque eu próprio sou tímido, digo a mim mesmo na dúvida: coragem!"

A situação da Igreja, sobretudo na Europa, "exige hoje decisões". E lá vem a questão da sexualidade e da comunhão dos divorciados recasados e da ordenação das mulheres e a lei do celibato. Questão essencial são os jovens, apresentado-se, neste domínio, um novo princípio pastoral: "Deixar-se ensinar pela juventude."

Critica a enciclica Humanae Vitae, de 1968, com a proibição da chamada "pílula contraceptiva". "O mais triste é que a enciclica é co-responsável pelo facto de muitos já não tomarem a sério a Igreja como parceira de diálogo e mestra." Confessa que a enciclica Humanae Vitae foi negativa. "Muitos afastaram-se da Igreja e a Igreja afastou-se de muitos. Foi um grande estrago." Mas, após quarenta anos, "poderíamos ter uma nova perspectiva." "Estou prefeitamente convicto de que a direcção da Igreja pode mostrar uma caminho melhor que o da encíclica." Procuramos "um novo caminho" para falar sobre a sexualidade, o casamento, a regulação da natalidade, a procriação medicamente assistida.

Quanto ao preservativo e atendendo à sida, ele próprio diz que acabou por tornar-se o "cardeal da camisinha", como lhe confessou a sorrir um padre do Brasil.

Sobre a juventude e a sexualidade, vai avisando: "Nestas questões profundamente humanas, não se trata de receitas, mas de caminhos." A direcção da Igreja fará melhor ouvir e "familiarizar-se com o diálogo."

Quanto à homossexualidade: "No meu círculo de conhecidos há casais homossexuais, pessoas muito respeitadas e sociais. Nunca ninguém fez perguntas e também nunca me teria ocorrido condená-las."

É verdade que não poucas mulheres criticam justamente a Igreja porque se sentem discriminadas. Martini reconhece que a "nossa Igreja é um pouco tímida" e que o Novo Testamento trata melhor as melhor as mulheres do que a Igreja. A direcção de comunidade por mulheres é bíblica e não excluir-se o debate sobre a sua ordenação.

O celibato exige uma verdadeira vocação. Ora, "talvez nem todos os que são chamados ao sacerdócio tenham este carisma." Depois, hoje, com a falta de padres, são confiadas cada vez mais paróquias a um sacerdote ou então dioceses importam padres do exterior. Mas isto, a longo prazo, não é solução.

De qualquer modo, é preciso "debater a possibilidade" de ordenar homens casados, de fé reconhecida e provados no trato com os outros.

A Igreja de Cristo é a favor do Homem, da justiça e do Deus vivo. Mas não tem o monopólio de Deus. "Não podes tornar Deus católico." Por isso,a Igreja dialoga com os crentes das outras religiões e igualmente com os não crentes, também para conhecer as suas razões.


Autor Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
In Diário de Notícias de 28 de Junho de 2008

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Um comentário final

Instintivamente sabia que algo não estava a correr de feição, sabia que havia diversas forças invisiveis que a puxavam para caminhos distintos. Teria agora a certeza de quem a influenciara nos últimos anos? Sabia apenas que os últimos anos tinham sido uma prova dura a toda a sua existência. Todas as contrariedades, todas as lutas que a envolviam e que muitas vezes não se apercebera tinham-na tornado em alguém distante e longe do que sonhara vir a ser. Concluia que estava só e que tinha uma mão cheia de oportunidades que qualquer ser-humano ansiava ter, mas tinha também muitos opositores que trabalhavam na penumbra para a destabilizar e desencorajar, tal como antes anos a tinham encorajado e incentivado para iniciar algo de que tiraram o máximo proveito. Escamotearam toda a sua existência, a sua natureza e a sua intimidade, em nome de uma vingança? em nome de uma religião? Pouco de si ficara intacto e as marcas de amargura iriam ficar indeléveis. Olhando para trás diria que fora o pino de jogos de interesses que se situavam bem acima da sua pessoa. Os que se julgavam agora em posição superior não sabiam que ela não tinha estado em luta contra ninguém e que o estado de vantagem que julgavam ter alcançado nada lhe dizia. O Ser e o Ter podem complementar-se se o ser-humano deixar de ser mediocre e mesquinho. Sabia que as suas acções tinham sido alvo de julgamento no decorrer dos últimos 12 meses, mas nunca ninguém parou, fixou o olhar nela e lhe perguntara "Estás bem?", "estás a sentir-te bem?", ou se tinha sentado à sua beira e simplesmente apertado a mão. Mas neste mundo terreno e materialista isso superfluo e desnecessário quando se tem dinheiro e poder.

terça-feira, 20 de maio de 2008

Humanismo?

Ainda existe esse conceito na nossa sociedade? Faz-se de tudo em nome de um Deus omniscientes, deuses pagãos, Cristo, dinheiro.

Gostaria de interrogar a quem decidiu tomar-me como alvo, o que de concreto lhe fiz, de que forma o prejudiquei. E acima de tudo, porque envolve o meu filho na questão.

O pequeno não tem culpa. Podem estrangular a mãe que estarão a estrangular a criança. A isto chama-se humanismo, integridade? Não me parece.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Sentado...

Libertou-se do estigma, amarrou-o ao preconceito, rebobinou as memórias e tentou satisfazer todos os desejos inerentes à existência humana. Esgotado, sem pingo de imaginação e criatividade declarou o dia acabado e estendeu-se na cama a observar o movimento hipnotizante da ventoínha de tecto. Esvaziou o pensamento, não foi necessário muito esforço, pouco lhe restava em que pensar ou a recordar no final dessa tarde de Verão. Os devaneios porque passara naquele dia faziam-no sentir atordoado e oco. Como ruído de fundo a música ambiente que escolhera escrupulosamente começara a irritar o seu sossego. Levantou-se de rompante, aproximou-se dos CDs, repassou-os um a um e nada do que via parecia satisfazer a sua ânsia de encontrar uma música que permitisse o relaxamento que necessitava. Pensamento vazio, mas vontade de sentir uma sensação nova transmitida por acordes inovadores e peculiares. Nada do que tinha à sua frente lhe parecia ter mérito para integrar a sua musicoteca. Que insatisfação, que vontade de fugir e de ficar.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

A sensação do Ser nas encruzilhadas da inexistência

Metaforicamente falando pouco tinha para oferecer ao seu interlocutor da pasta de papel que constituia o seu âmago no momento. Era uma pasta composta por folhas de papel escrevinhadas à pressa numa viagem de comboio, à mesa de um café, nas noites passadas em branco, amarrotadas e engolidas para que ninguém se apercebesse da sua existência.

O crítico literário que se sentara numa posição de "homem senhor-de-si-próprio" debitava a sua verborreia e o seu charme em quantidades abomináveis. Sabia que a intenção era apenas a de conseguir a edição do seu próximo romance na editora que representava.

Como teria chegado àquele estado? Não sabia bem que veredas tinha empreendido no seu percurso para chegar ao ponto de se encontrar sentado à mesa com um criatura deste género. Também ele tinha capacidade para fazer desempenhar aquele papel (aquele e outros tantos, depois de anos representação na Companhia mais famosa da cidade). Baaa! Cala-te!!, ecoou na sua cabeça...

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Um professor universitário

Saiu da sala e hesitou em dirigir-se ao aluno desinteressado, demoveu-o o pressentimento que a outra parte o iria receber de bom grado. Que tal ir até ao bar tentar travar conhecimento com alguém? Tinha necessidade de falar nem que fosse só do tempo, mas como? Não tinha à vontade suficiente para meter conversa com quem quer que fosse. Aos homens não saberia o que dizer (e a maior parte deles estaria mais preocupado em demonstrar a sua superioridade material, intelectual, viril, etc.), com as mulheres era sempre um risco muito grande (a desconfiança deste género desde sempre o intrigara).

Entrou no bar, pediu de forma educada uma sandes e um compal, ao qual a empregada respondeu com um seco "não temos compal", como se fosse uma ofensa pedir um produto que não constasse das existências daquele bar. O lagarto dentro de si contorceu-se, escondeu a cabeça no dorso, e fazendo um esforço para dissimular o seu embaraço, pediu uma água, bebida disponível em toda adega e restaurante do mundo civilizado. Com o mesmo modo carrancudo a empregada informou-o do preço e atirou-lhe o troco juntamente com um pedaço de papel para dentro de um pires colocado sobre a registadora. "Peça à minha colega ao balcão" o significa de tal gesto.

Sentado à mesa do bar da faculdade, levou algum tempo para iniciar o ritual de alimentar o seu organismo, tão absorto estava na observação de quem o rodeava. Aqui e além solitários como ele enfiados com a cabeça dentro dos livros, preocupados com certeza com o próximo exame, tese ou publicação, demasiado perto já para absorver todo o conhecimento desejado para o concretizar na perfeição. Ao lado, pequenos grupos introvertidos nas experiências comuns, fora daquele estabelecimento riam e expunham toda a magia do bem estar em grupo.

Pegou, por fim, na sandes...
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