Ofereceu-lhe um pequeno anel de prata. A amizade que julgava existir entre ambos era por si sentida como um valor incalculável, para além de qualquer interesse ou valor material. Para si a simples presença da outra pessoa, o seu sorriso, a sua disponibilidade para conversar era por si só suficiente para amar, aceitar e elevar ao estatuto de amigo aquela pessoa. Abrira-lhe todo o seu ser, abrira-lhe a porta de casa e recebeu-a como se de família se tratasse. Agora, tinha-a à sua frente com um anel de prata na mão e uma exigência descabida, uma exigência de retorno. Não sabia como reagir, tudo o que sentia estava a ser pôr posto em causa. Recuou dois passos.
Já passara por esta situação antes. Amigos que julgara terem um sentimento reciprocidade igual ao seu, teceram juizos de valor sobre a sua pessoa baseada em rumores e manipulações de opinião. Não queria passar pelo menos. Agarrou na mão da sua amiga, fechou-a com o anel no seu interior e agradeceu. O anel ficara na posse de quem estimou como um ente querido.
A solidão passou a ser a sua companheira da noite e dos longos dias. Não queria passar pelo mesmo, não queria magoar nem ser magoado. Ficou. Viveu. E desejou que o mundo à sua volta não se regesse por essas questões mesquinhas. Inutilmente.
quinta-feira, 7 de agosto de 2008
sexta-feira, 1 de agosto de 2008
A dualidade
Sentou-se à beira do muro, pernas penduradas, cigarro na boca. Contemplava a planície que se perdia de vista. Atrás de si a densidade das árvores deixaram-no num sentimento de sufoco atroz. Tivera dficuldade na travessia deste mato repleto de moitas espinhosas e arbustos traiçoeiros. Sentia alívio. Achava-se agora sentado a um nível mais elevado e todos os enigmas que atormentaram a sua imaginação enquanto desbravava o tumulto que o rodeava resolviam-se pouco a pouco, fio a fio com uma clareza pouco vulgar. Desejava ter ali um instrumento do qual pudesse soltar acordes e sonoridades singulares. Estava só. Sentado entre uma densa floresta e uma planície encantadora.
Que sonho mais irritante que o atormentava noite após noite. Suplicou poder deitar-se e saber que iria dormir tranquilamente até ao raiar do sol.
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