segunda-feira, 14 de julho de 2008
Mesmo depois de sair
Mesmo antes de sair, vestiu o casaco, levantou a gola e meteu as mãos aos bolsos. Já não dava pelos lenços amarrotados, os cigarros meio fumados e os talões de compra que se encontravam no fundo. Queria apenas assumir a sua postura e passar despercebido pelo meio da multidão que o esperava na rua em plena hora de ponta. Mesmo depois de sair debruçou-se sobre o capô do carro que se encontrava no exterior retirou a multa visível no pára-brisas, olhou em redor com todo o cuidado e num gesto discreto amarrotou-a e deixou cair ao chão. Feliz cidadão de um País mediterrâneo que desculpa estes pequenos gestos.
quarta-feira, 2 de julho de 2008
Conversas nocturnas em Jerusalem
A Igreja de Cristo é a favor do Homem, da Justiça e do Deus vivo
Acaba de aparecer, com o título Jerusalemer Nachtgespräche, uma série de diálogos entre dois jesuitas, em Jerusalém, noite dentro: o padre G. Sporschill, austríaco, e o cardeal Carlo Martini, antigo arcebispo de Milão e um dos nomes mais famosos da Igreja, durante anos considerado papabilis (possível papa), que aos 75 anos se retirou para Jerusalém: "Jerusalém é a minha pátria. Antes da pátria eterna."
"Houve um tempo em que sonhava com uma Igreja que segue o seu caminho na pobreza e na humildade, uma Igreja que não depende dos poderes deste mundo. Sonhei com o exterminio da desconfiança. Com uma Igreja que dá espaço às pessoas que pensam mais longe. Com uma Igreja que anima sobretudo aqueles que se sentem pequenos e pecadores. Sonhei com uma Igreja jovem. Hoje já não tenho esses sonhos. Aos 75 anos, decidi-me por rezar pela Igreja. Olho para o futuro. Quando o Reino de Deus chegar; como será? Como será depois da minha morte, o meu encontro com Cristo, o Ressuscitado?"
Significa esta confissão desânimo? De modo nenhum. É certo que o que lhe causa preocupação é "a falta de coragem". Aliás, a palavra"Mut" (coragem, ânimo) e, consequentemente, "animar", "ter coragem" são expressões constantes e recorrentes. "A Igreja deve ter a coragem de se reformar". "A Igreja permanentemente de reformas." "Porque eu próprio sou tímido, digo a mim mesmo na dúvida: coragem!"
A situação da Igreja, sobretudo na Europa, "exige hoje decisões". E lá vem a questão da sexualidade e da comunhão dos divorciados recasados e da ordenação das mulheres e a lei do celibato. Questão essencial são os jovens, apresentado-se, neste domínio, um novo princípio pastoral: "Deixar-se ensinar pela juventude."
Critica a enciclica Humanae Vitae, de 1968, com a proibição da chamada "pílula contraceptiva". "O mais triste é que a enciclica é co-responsável pelo facto de muitos já não tomarem a sério a Igreja como parceira de diálogo e mestra." Confessa que a enciclica Humanae Vitae foi negativa. "Muitos afastaram-se da Igreja e a Igreja afastou-se de muitos. Foi um grande estrago." Mas, após quarenta anos, "poderíamos ter uma nova perspectiva." "Estou prefeitamente convicto de que a direcção da Igreja pode mostrar uma caminho melhor que o da encíclica." Procuramos "um novo caminho" para falar sobre a sexualidade, o casamento, a regulação da natalidade, a procriação medicamente assistida.
Quanto ao preservativo e atendendo à sida, ele próprio diz que acabou por tornar-se o "cardeal da camisinha", como lhe confessou a sorrir um padre do Brasil.
Sobre a juventude e a sexualidade, vai avisando: "Nestas questões profundamente humanas, não se trata de receitas, mas de caminhos." A direcção da Igreja fará melhor ouvir e "familiarizar-se com o diálogo."
Quanto à homossexualidade: "No meu círculo de conhecidos há casais homossexuais, pessoas muito respeitadas e sociais. Nunca ninguém fez perguntas e também nunca me teria ocorrido condená-las."
É verdade que não poucas mulheres criticam justamente a Igreja porque se sentem discriminadas. Martini reconhece que a "nossa Igreja é um pouco tímida" e que o Novo Testamento trata melhor as melhor as mulheres do que a Igreja. A direcção de comunidade por mulheres é bíblica e não excluir-se o debate sobre a sua ordenação.
O celibato exige uma verdadeira vocação. Ora, "talvez nem todos os que são chamados ao sacerdócio tenham este carisma." Depois, hoje, com a falta de padres, são confiadas cada vez mais paróquias a um sacerdote ou então dioceses importam padres do exterior. Mas isto, a longo prazo, não é solução.
De qualquer modo, é preciso "debater a possibilidade" de ordenar homens casados, de fé reconhecida e provados no trato com os outros.
A Igreja de Cristo é a favor do Homem, da justiça e do Deus vivo. Mas não tem o monopólio de Deus. "Não podes tornar Deus católico." Por isso,a Igreja dialoga com os crentes das outras religiões e igualmente com os não crentes, também para conhecer as suas razões.
Acaba de aparecer, com o título Jerusalemer Nachtgespräche, uma série de diálogos entre dois jesuitas, em Jerusalém, noite dentro: o padre G. Sporschill, austríaco, e o cardeal Carlo Martini, antigo arcebispo de Milão e um dos nomes mais famosos da Igreja, durante anos considerado papabilis (possível papa), que aos 75 anos se retirou para Jerusalém: "Jerusalém é a minha pátria. Antes da pátria eterna."
"Houve um tempo em que sonhava com uma Igreja que segue o seu caminho na pobreza e na humildade, uma Igreja que não depende dos poderes deste mundo. Sonhei com o exterminio da desconfiança. Com uma Igreja que dá espaço às pessoas que pensam mais longe. Com uma Igreja que anima sobretudo aqueles que se sentem pequenos e pecadores. Sonhei com uma Igreja jovem. Hoje já não tenho esses sonhos. Aos 75 anos, decidi-me por rezar pela Igreja. Olho para o futuro. Quando o Reino de Deus chegar; como será? Como será depois da minha morte, o meu encontro com Cristo, o Ressuscitado?"
Significa esta confissão desânimo? De modo nenhum. É certo que o que lhe causa preocupação é "a falta de coragem". Aliás, a palavra"Mut" (coragem, ânimo) e, consequentemente, "animar", "ter coragem" são expressões constantes e recorrentes. "A Igreja deve ter a coragem de se reformar". "A Igreja permanentemente de reformas." "Porque eu próprio sou tímido, digo a mim mesmo na dúvida: coragem!"
A situação da Igreja, sobretudo na Europa, "exige hoje decisões". E lá vem a questão da sexualidade e da comunhão dos divorciados recasados e da ordenação das mulheres e a lei do celibato. Questão essencial são os jovens, apresentado-se, neste domínio, um novo princípio pastoral: "Deixar-se ensinar pela juventude."
Critica a enciclica Humanae Vitae, de 1968, com a proibição da chamada "pílula contraceptiva". "O mais triste é que a enciclica é co-responsável pelo facto de muitos já não tomarem a sério a Igreja como parceira de diálogo e mestra." Confessa que a enciclica Humanae Vitae foi negativa. "Muitos afastaram-se da Igreja e a Igreja afastou-se de muitos. Foi um grande estrago." Mas, após quarenta anos, "poderíamos ter uma nova perspectiva." "Estou prefeitamente convicto de que a direcção da Igreja pode mostrar uma caminho melhor que o da encíclica." Procuramos "um novo caminho" para falar sobre a sexualidade, o casamento, a regulação da natalidade, a procriação medicamente assistida.
Quanto ao preservativo e atendendo à sida, ele próprio diz que acabou por tornar-se o "cardeal da camisinha", como lhe confessou a sorrir um padre do Brasil.
Sobre a juventude e a sexualidade, vai avisando: "Nestas questões profundamente humanas, não se trata de receitas, mas de caminhos." A direcção da Igreja fará melhor ouvir e "familiarizar-se com o diálogo."
Quanto à homossexualidade: "No meu círculo de conhecidos há casais homossexuais, pessoas muito respeitadas e sociais. Nunca ninguém fez perguntas e também nunca me teria ocorrido condená-las."
É verdade que não poucas mulheres criticam justamente a Igreja porque se sentem discriminadas. Martini reconhece que a "nossa Igreja é um pouco tímida" e que o Novo Testamento trata melhor as melhor as mulheres do que a Igreja. A direcção de comunidade por mulheres é bíblica e não excluir-se o debate sobre a sua ordenação.
O celibato exige uma verdadeira vocação. Ora, "talvez nem todos os que são chamados ao sacerdócio tenham este carisma." Depois, hoje, com a falta de padres, são confiadas cada vez mais paróquias a um sacerdote ou então dioceses importam padres do exterior. Mas isto, a longo prazo, não é solução.
De qualquer modo, é preciso "debater a possibilidade" de ordenar homens casados, de fé reconhecida e provados no trato com os outros.
A Igreja de Cristo é a favor do Homem, da justiça e do Deus vivo. Mas não tem o monopólio de Deus. "Não podes tornar Deus católico." Por isso,a Igreja dialoga com os crentes das outras religiões e igualmente com os não crentes, também para conhecer as suas razões.
Autor Anselmo Borges
Padre e professor de FilosofiaIn Diário de Notícias de 28 de Junho de 2008
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