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quarta-feira, 2 de julho de 2008

Conversas nocturnas em Jerusalem

A Igreja de Cristo é a favor do Homem, da Justiça e do Deus vivo


Acaba de aparecer, com o título Jerusalemer Nachtgespräche, uma série de diálogos entre dois jesuitas, em Jerusalém, noite dentro: o padre G. Sporschill, austríaco, e o cardeal Carlo Martini, antigo arcebispo de Milão e um dos nomes mais famosos da Igreja, durante anos considerado papabilis (possível papa), que aos 75 anos se retirou para Jerusalém: "Jerusalém é a minha pátria. Antes da pátria eterna."

"Houve um tempo em que sonhava com uma Igreja que segue o seu caminho na pobreza e na humildade, uma Igreja que não depende dos poderes deste mundo. Sonhei com o exterminio da desconfiança. Com uma Igreja que dá espaço às pessoas que pensam mais longe. Com uma Igreja que anima sobretudo aqueles que se sentem pequenos e pecadores. Sonhei com uma Igreja jovem. Hoje já não tenho esses sonhos. Aos 75 anos, decidi-me por rezar pela Igreja. Olho para o futuro. Quando o Reino de Deus chegar; como será? Como será depois da minha morte, o meu encontro com Cristo, o Ressuscitado?"

Significa esta confissão desânimo? De modo nenhum. É certo que o que lhe causa preocupação é "a falta de coragem". Aliás, a palavra"Mut" (coragem, ânimo) e, consequentemente, "animar", "ter coragem" são expressões constantes e recorrentes. "A Igreja deve ter a coragem de se reformar". "A Igreja permanentemente de reformas." "Porque eu próprio sou tímido, digo a mim mesmo na dúvida: coragem!"

A situação da Igreja, sobretudo na Europa, "exige hoje decisões". E lá vem a questão da sexualidade e da comunhão dos divorciados recasados e da ordenação das mulheres e a lei do celibato. Questão essencial são os jovens, apresentado-se, neste domínio, um novo princípio pastoral: "Deixar-se ensinar pela juventude."

Critica a enciclica Humanae Vitae, de 1968, com a proibição da chamada "pílula contraceptiva". "O mais triste é que a enciclica é co-responsável pelo facto de muitos já não tomarem a sério a Igreja como parceira de diálogo e mestra." Confessa que a enciclica Humanae Vitae foi negativa. "Muitos afastaram-se da Igreja e a Igreja afastou-se de muitos. Foi um grande estrago." Mas, após quarenta anos, "poderíamos ter uma nova perspectiva." "Estou prefeitamente convicto de que a direcção da Igreja pode mostrar uma caminho melhor que o da encíclica." Procuramos "um novo caminho" para falar sobre a sexualidade, o casamento, a regulação da natalidade, a procriação medicamente assistida.

Quanto ao preservativo e atendendo à sida, ele próprio diz que acabou por tornar-se o "cardeal da camisinha", como lhe confessou a sorrir um padre do Brasil.

Sobre a juventude e a sexualidade, vai avisando: "Nestas questões profundamente humanas, não se trata de receitas, mas de caminhos." A direcção da Igreja fará melhor ouvir e "familiarizar-se com o diálogo."

Quanto à homossexualidade: "No meu círculo de conhecidos há casais homossexuais, pessoas muito respeitadas e sociais. Nunca ninguém fez perguntas e também nunca me teria ocorrido condená-las."

É verdade que não poucas mulheres criticam justamente a Igreja porque se sentem discriminadas. Martini reconhece que a "nossa Igreja é um pouco tímida" e que o Novo Testamento trata melhor as melhor as mulheres do que a Igreja. A direcção de comunidade por mulheres é bíblica e não excluir-se o debate sobre a sua ordenação.

O celibato exige uma verdadeira vocação. Ora, "talvez nem todos os que são chamados ao sacerdócio tenham este carisma." Depois, hoje, com a falta de padres, são confiadas cada vez mais paróquias a um sacerdote ou então dioceses importam padres do exterior. Mas isto, a longo prazo, não é solução.

De qualquer modo, é preciso "debater a possibilidade" de ordenar homens casados, de fé reconhecida e provados no trato com os outros.

A Igreja de Cristo é a favor do Homem, da justiça e do Deus vivo. Mas não tem o monopólio de Deus. "Não podes tornar Deus católico." Por isso,a Igreja dialoga com os crentes das outras religiões e igualmente com os não crentes, também para conhecer as suas razões.


Autor Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
In Diário de Notícias de 28 de Junho de 2008

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Um comentário final

Instintivamente sabia que algo não estava a correr de feição, sabia que havia diversas forças invisiveis que a puxavam para caminhos distintos. Teria agora a certeza de quem a influenciara nos últimos anos? Sabia apenas que os últimos anos tinham sido uma prova dura a toda a sua existência. Todas as contrariedades, todas as lutas que a envolviam e que muitas vezes não se apercebera tinham-na tornado em alguém distante e longe do que sonhara vir a ser. Concluia que estava só e que tinha uma mão cheia de oportunidades que qualquer ser-humano ansiava ter, mas tinha também muitos opositores que trabalhavam na penumbra para a destabilizar e desencorajar, tal como antes anos a tinham encorajado e incentivado para iniciar algo de que tiraram o máximo proveito. Escamotearam toda a sua existência, a sua natureza e a sua intimidade, em nome de uma vingança? em nome de uma religião? Pouco de si ficara intacto e as marcas de amargura iriam ficar indeléveis. Olhando para trás diria que fora o pino de jogos de interesses que se situavam bem acima da sua pessoa. Os que se julgavam agora em posição superior não sabiam que ela não tinha estado em luta contra ninguém e que o estado de vantagem que julgavam ter alcançado nada lhe dizia. O Ser e o Ter podem complementar-se se o ser-humano deixar de ser mediocre e mesquinho. Sabia que as suas acções tinham sido alvo de julgamento no decorrer dos últimos 12 meses, mas nunca ninguém parou, fixou o olhar nela e lhe perguntara "Estás bem?", "estás a sentir-te bem?", ou se tinha sentado à sua beira e simplesmente apertado a mão. Mas neste mundo terreno e materialista isso superfluo e desnecessário quando se tem dinheiro e poder.
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